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O Cortadinho

Infelizmente, poucos bebedores da minha geração sabem o que é um cortadinho. Eu próprio, não sabia. Foram precisas muitas sessões na tasca para descobrir esta bebida altamente regional, e em vias de extinção. Ainda me lembro perfeitamente quando a descobri há poucos anos. Foi numa manhã carregada de nostalgia e ressaca. As manhãs seguintes têm esse efeito condescendente, quase castigador, mesmo depois das mais agradáveis aventuras copofónicas. Nem 10 horas eram quando entrei pela “minha” tasca adentro, esse sítio mágico, que é tão nosso como de quem o quiser adoptar enquanto fonte social. O “meu” taberneiro, diagnosticando a minha condição, prescreveu-me um cortadinho. Na altura, não sabia do que falava, mas altamente conhecedor das suas excepcionais capacidades tasqueiras aceitei com total confiança. Após alguns minutos, um copo de tasca bateu no balcão (daqueles muito nossos, úteis quer à poncha, quer ao vinho seco). Carregava uma poção negra e quente, feita à base de café de cevada, com um generoso e espiritual toque de vinho da Madeira e uma raspa de limão.

De facto, existe algo de cómodo na confluência cafeína - álcool. Nas classes trabalhadoras é como “juntar o útil ao agradável”. É preciso força para trabalhar e uma ligeira anestesia para persuadir o espírito. Uma alegria forçada, vá lá. Existem os cafés com cheirinho, os cafés de mãos dadas com bagaços ou meias-bolas... Mas já os cortadinhos, poucos os bebem e ainda menos sabem da sua existência. Todavia, algumas raras vezes já o vi ser consumido. Obviamente, um vislumbre exclusivo de tascas madeirenses. Das verdadeiras. Já o vi, inclusive, a acompanhar uma sandes de filete. Foi como se, ao olhar para tal pessoa, estivesse a viajar no tempo. Diga-se, de passagem, que a decoração antiquíssima dessa tasca ajudou ao efeito. O tempo passou, e após alguns encontros com esta remota bebida cheia de sotaque, torneia-a uma das minhas predilectas. Uma forte aliada, principalmente, naquelas manhãs mais melancólicas.

As tradições alteram-se. A vida é dinâmica, mutável. Porém, há coisas que merecem ser preservadas. Pormenores, coisas nossas, coisas aglutinadoras, leves

lembranças de quem somos e daquilo que nos une. De onde viemos. O cortadinho tem um travo a isso tudo, e merece viver. Por essa e outras razões, quisemos oferecer-lhe um pequeno palco através desta cerveja, um subtil destaque. Com a preciosa ajuda dos amigos da Oitava Colina, e inspirados nos seus sabores, criámos esta cerveja negra com café. Todavia, não um café qualquer. Nada contra os despretensiosos cafés de cevada das tascas, mas o café que usámos é diferente. É mais café. Do melhor que há a nível nacional. Um café proveniente da excelente ODD Coffee Roastery, que pronta e competentemente colaborou connosco. O resultado desta experiência pode ser degustado do gargalo ou no copo. No entanto, só por respeito à tradição, bebam-na com uma raspinha de limão!


Diogo Jesus Abreu

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